Propostas musicais (Leipzig, fev. 2026)

Nomades in Leipzig, summary Workshop1 and 2 (Feb, 17th 2026)

! ARTIGO EM TRADUÇÃO !

Resumimos abaixo as 7 propostas musicais que fizemos nas 3 oficinas em Leipzig, nos dias 17 e 18 de fevereiro: O círculo, Estilo Uganda, Trabalhar com blocos, Partituras gráficas, Ritmo em oposição, Instrumentos preparados e Números como ritmo.
Com um pequeno prefácio para começar e, no final, alguns recursos e links sobre estas propostas (navegação com [↑] e [↓]).

 

Antes de mais nada

Para começar, duas considerações:

● Tentaremos criar música e sons de forma incomum, diferente da maneira mais generalizada, pelo menos para começar. Por exemplo, melodia, afinação e harmonia são uma forma muito comum de pensar, analisar e, assim, criar música, mas também poderíamos dar ênfase a outros parâmetros como som, timbre ou ritmo.
Wadada LEO SMITH falar frequentemente sobre música como “sound-rhythm”. Há um jogo de palavras em inglês, onde “sound” pode ser também um adjetivo, como em “sound health” (boa saúde) ou “sound idea” (ideia inteligente, sensata, razoável).
Henry KAISER “Ritmo, melodia e harmonia sempre foram os aspetos menos interessantes da música para mim. Sempre tive mais interesse em timbre, forma, tempo, espaço, vazio, estrutura, emoção, cor e expressão” [em Arcana III: Musicians on Music, John ZORN (ed.), NewYork: Hips Road, 2008, p. 103].

● Temos em mente que, após a reunião em Paredes de Coura em julho, teremos um grupo grande. No próximo outubro, seremos mais de 20 pessoas a tocar música juntas: isto muda a prática e a organização dos sons.

 

Propostas Musicais

 

O círculo

O grupo forma um grande círculo (sem um instrumento musical no início, mas podemos introduzi-los mais tarde para continuar). O objetivo é explorar a produção sonora coletiva com todos numa posição mais igualitária do que atrás de um instrumento mais ou menos controlado.

  • Construir um ciclo humano: cada participante emite um som ao passar a corrente para um vizinho.
  • Desenvolvimento Gradual, adicionando um segundo Piso: cada participante mantém o seu som, e adiciona um som diferente com outro participante no círculo.
  • Organização em blocos diferentes: cada ronda pode ter instruções particulares associadas a uma cor especial.

Por exemplo, 1 ronda com som curto e alto, 1 ronda com som curto e suave, 2 rondas com som longo, sendo a primeira num crescendo, depois um momento como “esta manhã” (onde todos explicam o que fizeram esta manhã o mais rápido possível na sua língua materna), depois a 1ª ronda com som curto e alto.

 

Estilo Uganda

Inspirado numa forma de escrever da Uganda (ainda não a conseguimos encontrar na net!), apresentamos duas ideias:

  • A 12 notas tocadas regularmente
    4 3 4 3 3 3 4 3 4 4 2 2, e escolhemos: 4 é um E, 3 é um A, 2 é G.
  • B são 6 notas tocadas em intervalos regulares
    5 2 1 6 2 1, sendo 5 um Dó, 6 um Ré, e 1 um Mi grave.

Com ritmo: a fórmula das 6 notas (B) pode ser um compasso de 6/8, ou um compasso de 3/4. As 12 notas de A são duas vezes mais longas.
Harmonicamente: as notas escolhidas são retiradas da pentatónica de Dó maior (ou da de Lá menor), mas com uma ligeira ênfase no Mi.

A codificação “um número=uma nota” pode ser utilizada de forma diferente.

 

Trabalhar com blocos [↓]

Definir e caracterizar alguns blocos de sons-tipo de música e brincar com eles em _cue_ ou numa estrutura já escrita, etc.

 

Partituras gráficas [↓]

Tocar uma partitura gráfica é interpretar qualquer imagem como uma partitura, uma representação visual que nos pode dar instruções e formas de organizar sons em conjunto.

 

Ritmo em oposição

Toca uma nota regularmente, a um ritmo igual. São semínimas.
A certa altura, qualquer pessoa pode adicionar uma colcheia e continuar regularmente com semínimas depois.
Algo como…

Tocar e variar a tonalidade, a intensidade, tocar/não tocar por grupo, adicionar pequenos solos sobre o ritmo coletivo, etc.

 

Instrumentos preparados [↓]

Ao adicionar/remover objeto(s), ao agir noutras partes, podemos tocar o nosso instrumento de forma diferente e encontrar novos sons.

 

Números como ritmo [↓]

Desta vez, os números são um código/indicação para ritmo. Por exemplo, “3” é pensado como “UM, dois três” tocado regularmente, mas apenas o UM é tocado com acento.
Podemos adicionar e combinar números diferentes para partes diferentes. Em grupos grandes, um som curto de cada UM é geralmente preferido para que todos se ouçam, mas alguns dos números podem ter um som longo.

Por exemplo, um 3331+55+424 (um ponto de encontro a cada 10 subdivisões) com os primeiros 5 longos pode ser representado assim:

 

Nicolas, pela Equipa Francesa (20 de abril de 2026).

 


 

Alguns detalhes

 

A trabalhar com blocos? [↑]

Trabalhar com blocos é uma forma antiga de fazer música (por exemplo, a música de Igor STRAVINSKY é frequentemente analisada como blocos), e muito comum (música sequenciada que lida com áudio e/ou MIDI numa unidade retangular, um bloco, colocada numa linha temporal, ou *pads* a materializar unidades e blocos). Muitos compositores gostam de mudanças súbitas e potencialmente surpreendentes. Estas são frequentemente desafiadoras na improvisação coletiva, pelo que os improvisadores também as apreciam. Vejam, por exemplo, as técnicas composicionais de John ZORN, como “Speedfreaks”, uma composição hardcore-miniatura que leva ao extremo a série de pequenas células musicais, para a banda Naked City (que também explora outras abordagens composicionais), ou as regras de jogos de improvisação como “Cobra” (onde uma pessoa atua como direcionadora, reunindo as ideias do grupo e organizando-as, nomeadamente utilizando cartões de pauta), ou as suas composições em fichas (sobre um tema, a pesquisa cria muitas fichas – uma ficha, um “coisa” sonora –, que depois ele ordena e vai para o estúdio).

Velocípedes” (Naked City) em estúdio, e um apresentação ao vivo.

O caminho de John Zorn de pensar em blocos, algumas explicações:

  • relativamente à composição do seu cartão de ficheiro “Spillane” e a músicas para desenhos animados (vindo do documentário Put blood in music, sobre Nova Iorque, John Zorn e Sonic Youth, de Charles ATLAS, 1989, cerca 12’05’-18’40);
  • e aqui ficam alguns excertos do ensaio de “Cobra” (vindo do documentário Na ponta, Parte 1, A passar adiante, por Derek BAILEY, 1992, circa 20’01-29’06).

 

Partituras gráficas? [↑]

O 2ª edição digital sobre PAALABRES O site (Artistic Practices in Acts, Laboratory of Research) é feito com um monte de realizações e descrições, análises. “O uso de partituras gráficas está hoje disseminado em contextos e modos de comportamento estético extremamente variados.” (PaaLabRes, 2017).
Existem tantos exemplos... veja algum tipo de uma arrumação e uma lista, feita há 50 anos e de um ponto de vista musical muito clássico e contemporâneo, mas impressionante. Mas podemos falar sobre Treatise por Cornelius CARDEW (1963-1967, 193p manuscritas com um “sem instruções!” muito importante), e as de Fred FRITH (instruções construídas pela interpretação de fotografia, ver disco Stone, Brick, Glass, Wood, Wire (Graphic Scores 1986-96), I Dischi Di Angelica, 1999), e o início da entrevista de Pascal PARIAUD.

 

Instrumentos preparados? [↑]

John CAGE is a very well known composer, so the prepared instrument is very often linked to him. He has been developing the prepared piano since 1940. “The story of Cage’s invention of the prepared piano is fairly well-known. In 1940, while a dance accompanist at The Cornish School in Seattle, Cage was working mostly with percussion music. When one of the dancers, Syvilla Fort, asked Cage to write the score for her dance Bacchanale, she surely expected a percussion work. However, the concert was to be held in a space too limited for the battery of instruments that Cage typically used. All he would have at his disposal was a piano. The music he had in mind did not lend itself to the clear pitches of the piano, so Cage found a way to alter the piano to make it sound more like the percussion instruments he favored. He wedged bolts and pieces of weather stripping between the strings of the piano, muting the tone and creating more complex, inharmonic timbres. After this discovery, ‘I wrote the Bacchanale quickly,’ Cage recalled, ‘and with the excitement continual discovery provided.’” [James PRITCHETT, in “John Cage and the prepared piano: a twelve-year history in six parts”, 2007].
It is said that Erik SATIE put papers in the strings of the piano in 1913 (Le piège de Méduse).

Mas todos os que adicionam/removem objetos, que agem numa parte especial do instrumento fazem quase o mesmo: a mão na campana da trompa (já conhecida e utilizada no século XVIII), as diferentes surdinas para trompete ou violoncelo, encontrar harmónicos, duplos tons, etc. O aparecimento de ferramentas elétricas, eletrónicas e digitais multiplica as ideias (a guitarra elétrica é um bom exemplo).

Podemos tocar os nossos instrumentos de forma diferente e encontrar novos sons.

 

Números como ritmo? [↑]

Os números podem indicar uma nota, mas também podem indicar instruções rítmicas.
Vamos dizer que “3” é “um, dois três” tocado normalmente,
 … com ênfase no um: “UM, dois, três”
  … e sem o dois e o três, toca-se apenas o UM…

Uma sucessão de representações com o exemplo 3331+55+424 (um ponto de encontro a cada 10 subdivisões),
com todas as contagens:

com o acento apenas no “UM”:

com os primeiros 5 longos, todos os outros curtos: